#60 De volta à escola
Novos e antigos caminhos para aprender
Meu livro de estreia, “Burnoutado – crônicas de um professor em recuperação”, é um manifesto de amor e às décadas dedicadas à educação. O registro de uma pausa após sucessivos sustos em anos de trabalho na área, cujas consequências foram fobias, gatilhos e outros pânicos vindos não sei realmente de onde, mas dos quais posso desconfiar pelos sinais.
Passados quatro anos desde que me distanciei, me aventurando pelo mundo da editoração — um respiro — retornei à escola no último mês, revigorado, ciente dos desafios, bem diferente daquela pessoa que abandonou tudo em janeiro de 2022 tomado por arfares descontrolados e tentativas de fuga para não sei onde.
Abandonei os adolescentes rebeldes para entrar no mundo das crianças em seus primeiros anos de alfabetização e letramento. Confesso que a experiência tem sido encorajadora. Cheios de energia e criatividade, mas bastante dispersos, os pequenos têm me fornecido um alento há muito tempo esquecido: a esperança.
Tomados de contradições e seduções do universo capitalista, os estudantes de nove anos ainda têm dúvidas sobre o mundo, o universo, o futuro. Experimentam diferentes emoções sem se agarrar a elas. Não compreendem o aquecimento global, apesar de já sofrerem suas consequências. Há uma sinergia entre eles que é difícil de descrever, mas que tem me proporcionado muito prazer em ensinar e aprender,
Nos últimos anos, há uma enxurrada de diagnósticos para justificar as dificuldades de aprendizagem, sintoma dessa geração nascida na pré-pandemia, filhos do iPhone, sequestrados de sua atenção pelas telas.
Eles e nós temos amargado com a falta de memória, a incapacidade de reter dados, de dar atenção às pessoas, à vida que acontece aqui e agora. Sofremos pela novidade das telas sem fim, ameaçados por IAs, com a retração social. A educação vai no seu reverso, ajudando a enfrentar distrações em prol do desenvolvimento das habilidades sociais e de pensamento.
Na minha escola é proibido usar celular, o que tenho percebido pelos resultados em sala de aula. Os estudantes amam atividades de pintar, jogos pedagógicos, mas ainda possuem muita dificuldade de concentração e memorização em atividades que envolvem raciocínio simples, baseado no abstrato, operações que nós, adultos, não nativos digitais, já internalizamos.
Não posso deixar de perceber que, diante do retorno, a classe do magistério está cada vez mais adoentada. Com cargas horárias excessivas de aulas que acontecem de manhã, à tarde e se estendem à noite, o estresse toma conta da vida do professor e da sua constante desvalorização diante não só dos baixos salários, mas da falta de apoio para trabalhar com alunos cada vez mais heterogêneos e diversos. O que parece funcionar no papel não acontece na dureza da experiência da sala de aula em três turnos.
Apesar de tudo, sinto depois de um mês que há uma beleza indescritível na criação de uma história, na resolução de um problema matemático, na elaboração de um desenho, na curiosidade de uma pergunta que não quer calar diante da ansiedade incontrolada dos nossos tempos.
As crianças ainda questionam, propõem, sonham, o que é um alívio. Espero que a adolescência e a adultez não as matem, não transformem toda essa potência em uma corrida desenfreada por dinheiro para pagar as contas e consumir ainda mais. As crianças podem salvar os adultos. Não se acostumam. Elas trazem energia e vigor necessários para enfrentar esses tempos de estupidez, de guerras e prepotência desenfreadas.



Se perder é tão fácil. Estar em contato com essa energia não corrompida da infância deve ser um bom lembrete para seguir pelo caminho do coração. Espero consiga sustentar essa harmonia no seu retorno, Samuel!
Que bacana, Samuel. Desejo um excelente retorno nessa nova empreitada. É importante que faça sentido e nos traga reconhecimento próprio. Um abraço